Vida e Cotidiano

Revisitar nossa cidade natal é também revisitar a nós mesmos

09:46:00

Todas os retornos à minha cidade natal, ainda que nem um pouco distante do meu local de moradia atual, são sempre reencontros com grande parte de quem eu sou e fui. Ainda que a minha cidade natal não seja uma das minhas favoritas, é inegável que ela carrega em cada avenida um pouco da minha história até aqui.

Revisitar minha cidade natal é como revisitar a mim mesma. As ruas tranquilas daqui me mostram o porquê sempre fomos tão diferentes, já que agitação é meu sobrenome. O caminho de ônibus no interior também é mais tranquilo e até inspirador eu diria. Todas as viagens até aqui me fazem pensar tanto sobre a vida, cada montanha que passo me traz um carinho ou uma lembrança e por aqui também o céu se faz mais próximo.

Voltar a minha cidade me leva de volta no tempo, me faz voltar a ser aquela garota que imaginava as conversas e finais felizes das pessoas pela rua. Voltar aqui e observar as pessoas que serenemente atravessam a rua sem nem olhar para os lados, apenas na certeza de que os carros irão parar, simplesmente por educação, me faz perceber porque sempre esperei tanto das pessoas e, também, porque sempre acreditei que podíamos apenas confiar na intuição de que as coisas vão dar certo.

Por aqui as pessoas também trabalham e muito, mas os passos apressados não são frequentes. Aqui as pessoas se esbarram, mas se enxergam e a pressa quase nunca faz morada. Talvez seja por isso que aqui não seja minha cidade preferida, mas com certeza é a minha cidade de paz. Por aqui, minha terrinha natal é tranquilidade e paz. Avenidas movimentadas só as dos filmes e novelas nas televisões vizinhas. Aqui o movimento se faz em ritmo desacelerado, porque por aqui o que importa mesmo é o caminho e não o ponto de chegada.

Voltar aqui me faz perceber que o que antes era um defeito, hoje talvez eu deva olhar com outros olhos. Por aqui ninguém é desconhecido, os esbarros pelas ruas vem logo acompanhados de um "Nossa, quanto tempo" ou "Oi, desculpa. Você é o pai do primo do meu amigo?"....Ah, os laços, por aqui sempre tão estreitos.

Eu costumava detestar o fato de que aqui as pessoas se conhecem e se reconhecem com muita facilidade, a ponto de lembrar o que você fez na única balada da cidade. Isso era péssimo pra mim, mas hoje percebo que revisitar minha cidade tem dessas, ser reconhecida, trombar com diálogos muito parecidos acompanhados de saudade e espantamento "nossa, você sumiu? mudou de cidade?"....O espanto vem da minha partida, afinal por aqui ir embora é sempre muito doloroso, há apego, há apreço e também há muito de mim.

Mas como eu ia dizendo, hoje o que era defeito por aqui e pra mim, talvez precise ser encarado como uma raridade. Por aqui, na minha cidade, as pessoas não são apenas números, por aqui cada um carrega sua história que quando esbarrada com a minha lembra sempre de antigos capítulos que se não foram escritos por nós, talvez tenham sido pelos nossos pais.

Por isso, revisitar minha cidade me lembra o porque de muita coisa em minha vida, o porque cheguei até aqui e, principalmente, o porque o partir continua sendo doloroso. Mas o retorno para as raízes me ensina também que às vezes o partir é necessário para que a gente comece a valorizar nossas chegadas sem nos preocuparmos com o tempo ou com a demora delas.

Se como dizia o sábio "nossa mente é o nosso lar!", ouso dizer que o meu lar é aqui e agora.

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