Contos e Crônicas

O Diário de Um Foca Frustrado: Uma carta de despedida

19:43:00

Puta merda diário, a vida esteve uma loucura tão insana que te larguei em um canto escuro do quarto e olha só, mais de um ano se passou e só agora eu lembrei da sua existência.




Porra cara, me perdoa!
Eu mudei muito nesse último ano e posso te dizer que ser editor-chefe não podia ser mesmo boa coisa, ainda mais depois que quem me indicou foi aquele meu ex-chefe filho da puta. Eu realmente fui ingênuo, deveria ter ouvido mais a minha intuição que ficou cabreira quando ao invés de me demitir, o cara vende o jornal e ainda me oferece uma "promoção"?

Idiota.
Eu sempre fui mesmo, mas ao aceitar esse emprego "novo" dos sonhos, eu peguei meu certificado de otário. E, você se lembra ainda da Paulinha? Pois é cara, nosso romance tava lindo, a gente finalmente estava se dando bem e ela, finalmente, deixou de lado a imagem de cara bobo da faculdade. É cara, tava tudo tão bom, a sintonia era fina, sabe?

Mas ai, é aquela coisa né, a vida vem que vem quando você decide colocar sua profissão a frente de todas as outras prioridades. Aceitando o posto de editor-TÃOSONHADO-chefe, eu aceitei abdicar da minha vida pessoal e quase morri nesses 12 meses sem nenhuma folga.

Me entupi de café, me enchi de cerveja, engordei uns bons vinte quilos de puro estresse. Mas a pior parte, nem foi isso, os dentes amarelados por conta do café não são meu maior problema hoje. A pior parte é que eu consegui me afastar dos meus poucos amigos, porque CLARO NÉ, o poder subiu a cabeça desse idiota e eu acabei negando muitos convites de chopp no boteco da esquina, porque estava ocupado demais indo aos eventos de assessores de imprensa fodões.

Eu sou muito otário né cara? Como pode um ser humano achar que o dinheiro e a profissão podem mesmo substituir as felicidades da vida?

Eu vou até te falar a verdade, voltei pra escrever aqui hoje, porque eu realmente fiquei muito tempo longe de tudo o que me lembrava quem eu era, porque quem eu era estava realmente decepcionado com esse cara otário que eu estava me tornando. E você cara, é um dos poucos que não só me lembram, mas me provam por palavras minhas que eu mudei mais do que deveria.

Mas enfim, não quero me prolongar.
Quero só te adiantar que gostaria de reatar nossas relações, porque escrever o que eu to sentindo aqui sempre me trouxe boas reflexões e, mais do que isso, sempre me mostrou a coisa certa a fazer. Você é tipo um amigo imaginário de um cara adulto que não faz a menor ideia do que está fazendo com a própria vida. É como se você me mostrasse o caminho a seguir, quando na verdade sou só eu mesmo me dando mais ouvidos....

Ah cara, a vida tá na merda, NUNCA PENSEI QUE IA DIZER ISSO, mas eu tô aliviado de ter recobrado a consciência e, mais ainda, pago as contas.

O que eu não quero daqui pra frente é continuar ganhando um dinheiro a base de noites de insônia, meses sem folga e amizades perdidas. Prefiro é voltar para os meus freelas meia boca, que pagam mal pra caralho, mas me deixam dormir com a consciência tranquila.

Ah, é claro que eu não tô dizendo que a profissão de editor-chefe é ruim, muito pelo contrário, ela é ótima. Eu é que não sei lidar com o status quo da vida de editor e como bom jornalista que sou, vou é respeitar o deadline da minha consciência e embarcar amanhã em uma viagem para fora do país.

Pelo menos os erros serviram pra alguma coisa, pagar contas, me fazer enxergar que os likes do instagram não servem pra nada e que uma boa viagem para a Europa, talvez me ajude a retomar as prioridades da vida e também da profissão.

Espero que a gente se encontre em breve, por hora, apenas muito obrigado por seguir comigo, carregando minhas histórias e frustrações.

Mande um abraço à Paulinha, quem sabe um dia ela me perdoe por ter sido um completo idiota, quando na verdade ela merecia o cara legal que eu sempre sonhei ser pra ela.

Até breve, com carinho.

Seu amigo Foca!

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