Diário de um foca frustrado

O Diário de Um Foca Frustrado - Tentando algo novo

15:13:00


Querido diário, sim, vou começar assim meu desabafo de hoje, porque hoje quero ser clichê. Começar reclamando da vida e no final não fazer sentido algum, ou quem sabe algum sentido. Enfim, hoje quero esquecer todas as ideias e vontades de ser diferente do resto do mundo, pois essa tentativa frustrada já me desmotivou o suficiente.

Os dias se passaram com tanto trabalho e algumas mensagens trocadas com a Paulinha, sim, porque agora nós voltamos a nos encontrar e até que está indo bem, estou tentando me comportar como um adulto. (e está bem difícil, confesso). 

Enfim, os dias se passaram mais clichês do que nunca, sempre aquela mesma rotina, de acordar cedo, reclamar de sono e da vida, reclamar do trabalho, lamentar por não ter escolhido outra profissão e pegar dois ônibus para a redação. Já quando chego na redação é aquela coisa que vocês já sabem, aguentar meu chefe insuportavelmente chato, cobrir pautas idiotas de qualquer boca de lobo entupida, procrastinar meu trabalho enquanto vejo algumas redes sociais e me atualizo das polêmicas do dia no Facebook. 

Mas a parte do dia que mais me faz pensar, que mais me deixa alucinado de tantas inseguranças, incertezas e frustrações, é a parte da noite/madrugada. Incrível o poder que essas horas tem de nos deixar neuróticos sobre a vida e o futuro dela. E foi em um dia desses que eu percebi que estava cansado de tentar me destacar.

A primeira reação quando você percebe que não está chegando a lugar nenhum tentando ser diferente é uma certa decepção com o universo, já que era para ele aceitar e agradecer pessoas que desejam fazer a diferença nele, depois vem a aceitação de que a vida é assim mesmo, nada justa, e muito competitiva. Eu sei, você deve estar pensando, como sempre, onde eu quero chegar falando tudo isso, mas fique calmo que vou explicar.

A minha vida inteira eu quis ser diferente da massa, quis fazer a diferença na vida das pessoas e encarei o mundo com os olhos um pouco mais sensíveis dos que eu vejo por aí. Eu sempre quis ser a diferença para todas as pessoas que eu conhecia e até para aquelas das quais nunca ouvi falar. Acho que essa vontade se explica bem com a escolha da minha profissão.

Quando eu decidi ser jornalista eu idealizava uma vida onde eu seria o herói, onde eu sempre estaria a ajudar pessoas que quisessem ser ouvidas, mas ai peguei o diploma e consegui aquele tal emprego dos sonhos. Estou onde mais da metade dos meus colegas, que se formaram comigo, gostariam de estar. Meu emprego paga bem, sou invejado por muitos, mas sempre sinto que algo me falta.

Em mais uma dessas noites de insônia eu percebi que o que me faltava realmente era fazer algo que me desse vida, porque só cobrir pautas pagas pela prefeitura, definitivamente, não era o jornalismo que eu sonhava fazer. Cai na real e aceitei que o jornalismo no país não é nem de longe o jornalismo que eles ensinam na faculdade, aquele que prega a verdade e vive por ela. 

(Eu sei que estou generalizando, assim como também sei que você vai entender que eu sei que existe gente boa na profissão)

Enfim, depois de muito pensar resolvi que iria fazer alguma coisa. Percebi que estava reclamando há mais de seis meses sobre uma coisa que eu não me esforçava para mudar. Depois dessa madrugada em claro, fui trabalhar convicto de que faria alguma coisa da minha vida a partir daquele dia. Entrei na redação e todos notaram que havia algo de diferente no meu olhar e estavam certos, aqueles danadinhos, nunca dá pra esconder nada de jornalistas.

Bati na porta do meu chefe e após aquela voz ríspida me autorizando, entrei.
A conversa foi breve e pude esvaziar meu peito de todas as vezes que ele havia sido um escroto comigo e com meus colegas. Eu disse a ele que ele não era ético, nem profissional e que aquele jornal precisava de um chachoalhão, uma vida e que deveria parar de aceitar verba da prefeitura para noticiar apenas coisas boas sobre a cidade, sempre com aquele jabazão que eu já estava enojado. 

Ele me olhava fixamente sem esboçar nenhuma reação e ao final do meu discurso apenas empurrou até mim uma folha que para minha surpresa era um papel com a minha promoção. 

WTF???? Você com certeza não teve uma reação mais surpresa do que a minha, eu fiquei de olhos arregalados e quase perdi a cor (ok, eu realmente perdi a cor). Fiquei mudo por alguns segundos quando ele finalmente decidiu falar. 

Tudo foi muito rápido, eu juro, mas estou contando os detalhes para você entender o tamanho do meu espanto. O cara mais mala do mundo, o escroto odiado por toda a redação estava deixando o jornal e mais do que isso, estava vendendo o jornal. A crise chegou no bolso do cara que arrumou um comprador top, dono dos meus canais preferidos, e TCHARAM, ele me indicou para ser o editor-chefe no lugar dele.

QUASE MORRI DO CORAÇÃO CARA, como aquele filho da puta faz isso comigo? Quando eu imaginar que ele iria sair do jornal e de quebra ainda ia me dar uma promoção?
WTF??????? 
Eu sei lá viu, ainda não consegui digerir muito bem as coisas. Tudo ainda está confuso aqui dentro e na redação ainda está tudo uma bagunça. Parece que daqui umas semanas todos os móveis velhos serão jogados fora, os jornais e nosso vínculo "ilegal" com a prefeitura também.

Cara, eu tô com medo, mas tô tão aliviado que só posso te dizer que as coisas acontecem cara, uma hora ou outra, as coisas vão dar certo. É só acordar um dia e fazer acontecer, só a iniciativa de dar um basta pode ter um poder milagroso em cima de todas as outras coisas da vida.

SOCORRO, virei editor-chefe porra!!!!!

Outra hora eu volto pra contar como foi e também para falar dos meus últimos encontros com a Paulinha.

Atenciosamente, 
Aquele foca frustrado de sempre.
(agora EDITOR-CHEFE, porraaaaaaaaaaaaa!)


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