Contos e Crônicas

Lembranças da Faculdade e da Padoca - Diário de um Foca Frustrado

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Mais um dia da minha vida de recém-formado que chega ao fim e eu venho me deitar com o imenso alívio de “sobrevivi a mais um dia”. Eu me lembro quando entrei na faculdade e tudo o que eu pensava era que poderia salvar o mundo. Eu olhava para todos do terceiro, quarto ano indo para o bar ao invés de prestarem atenção às aulas e pensava “eu nunca farei isso”. Pobre ilusão a minha vida de bicho novo de faculdade.

É claro que o terceiro e o quarto ano chegaram para mim também e logo eu que sempre achei aquilo um absurdo, já era perito em perder horas na padaria do Galvão, famosa padaria/boteco/casa dos universitários da comunicação.

Na padoca eu descobri os vários motivos que faziam aqueles jovens estudantes de jornalismo trocarem as aulas pelas cervejas geladas e os debates insanos sobre a vida universitária. “Jornalista gosta de gente e de convívio diário”, exatamente o principal motivo que todos faziam da ida à padoca quase um ritual. Salvo as exceções, como prazos apertados com o projeto de tcc e provas substitutivas, todos os dias precisavam ter pelo menos 20 minutinhos de padoca do Galvão na vida dos universitários e claro, comigo não foi diferente.

O mais incrível da faculdade pra mim foi encontrar dezenas de pessoas que tinham os mesmos desejos que o meu, “salvar o mundo” e cara, como éramos ingênuos ao nutrir esse desejo. Hoje, quando me pego encarando o diploma na parede, percebo o quanto ser jornalista vai muito além daquelas letras que declaram para todos os fins que de fato sou jornalista.

Hoje cheguei em casa, depois de mais um dia estressante na redação, abri minha lata de cerveja, que não veio do freezer do Galvão, e me enchi de saudades. Hoje antes de vir aqui conversar com você, “querido diário”, tomei minha cerveja, assistindo os desfechos do BBB15 e podem me julgar a vontade, mas todos jornalistas, por mais cults que sejam, acompanham vez ou outra um programa de massa e acham o máximo.

Eu realmente não consigo entender qual foi o ponto que deixei minha ilusão de lado, mas tudo o que conclui do dia de hoje é que ser jornalista é tentar salvar a sí mesmo todos os dias um pouco. Acho que já é um tipo de ato heroico a se considerar né? Minha mãe já pode ter orgulho de mim que resisto firmemente a vontade de não voltar pra casa e encher a cara no bar. Até eu mesmo me sinto meio herói quando abro a porta do meu apartamento e percebo que ele ainda não foi invadido por uma família de ratos ou gatos que achou que aqui era um lugar abandonado.

Então, por hoje “querido diário” minha conclusão é que todos jornalistas (não todos, droga, sabemos que generalizar é uma coisa extremamente errada) são heróis de sí mesmos lutando todos os dias para se salvar de pautas furadas, fontes caladas e aquele editor-chefe mala.

Quem sabe amanhã quando eu acordar, eu receba uma mensagem do chefe dizendo que estou de folga, afinal essa semana tem feriado e feriado é uma palavra quase proibida no nosso calendário.

Bem, SONHAR, eis o que movimenta a engrenagem de todos jornalistas recém-formados e até os velhos frustrados.
Atenciosamente,

Aquele foca frustrado de sempre.

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