Contos e Crônicas

Um Telefonema

07:38:00



Já era tarde da noite quando o telefone tocou, lá fora ainda nevava vestígios de um inverno perto do fim. Carolina como de costume estava embaixo da coberta com seu balde de pipocas e seus dvds preferidos. O toque do telefone preencheu o silêncio daquela casa vazia e também assustou a moça que levantou-se da cama e correu para atender.


Entretanto, antes mesmo que conseguisse, a ligação caiu na secretária eletrônica, e em silêncio Carolina reconheceu aquela voz que dizia:

 

-  "Olha sei que demorei pra ligar e até mesmo pra voltar, mas será que pode atender pelo menos o telefone? Eu continuo mal criado, mas ainda te amo!" 

 

Ah, mas mesmo que a voz fosse outra, aquelas palavras entraram cortantes em seus ouvidos e antes que a ligação chegasse ao fim, Carolina encontrou coragem para puxar o telefone do gancho. Ainda em silêncio do outro lado da linha era possível sentir a respiração de Carlos que gaguejava tentando falar alguma coisa que fizesse sentido frente há tantos anos passados.

 

Carolina pensou por alguns instantes em tudo o que teve que fazer para superar aquela perda e nas tantas histórias que ficaram por contar. Encheu os pulmões de ar e também gaguejando perguntou:

 

 - O...que é qu..e você.. ain...da quer.. co..migo? 

 

E ao ouvir aquela voz tão doce, Carlos não conseguiu se conter e respondeu quase que gritando: - Amar você, é o que eu quero!

 

"Ah, mas quem ele pensava que era? Sumiu durantes anos, morou em Londres por três anos, já havia terminado alguns relacionamentos e depois de enjoar de sua vida solitária resolveu voltar para infernizar minha vida?" - ela pensava enquanto aquela aquela voz ecoava em sua cabeça.

 

- Alô? Carol? Carol? Você ainda tá ai? Ca...rol?

Ele dizia repetidas vezes até se convencer de que era tarde...

 

"Olha moça bonita, eu sei que não fiz por merecer nem sua voz. Mas bem que você podia falar comigo, aquele dia no café você não pareceu magoada. O que foi? Me desculpa, eu não quis ficar tanto tempo longe, eu não quis ir embora.."

 

Foram suas últimas palavras antes de ser atropelado por toda mágoa que causara em Carolina.

 

- Escuta aqui cara, você não tem que se desculpar de nada, mas também não venha me dizer que não quis ficar tanto tempo longe. Você quis e ficou. Mas agora não importa, talvez nunca tenha importado. Bem, dane-se, o fato é que agora eu mudei, as coisas mudaram.. Você não pode chegar aqui e fingir que eu ainda sou a mesma de antes e que nada aconteceu, porque vai se enganar. Então presta bem atenção, hoje eu estou com 28 anos e você foi embora quando eu tinha 18. Você pensa que o que? Que eu vou voltar correndo para os seus braços feito uma adolescente?? Não, eu não sou mais aquela menina boba que você podia enganar. Mas se ainda assim quiser conversar, pelo menos pra exorcizarmos todos esses fantasmas do passado, beleza, mas não venha me dizer que me ama, que só queria meu bem, porque isso...isso eu não vou aceitar, muito menos admitir. - ela gritava ao telefone.

 

Quando finalmente havia deixado que todos seus demônios saíssem. Quando finalmente respirou fundo e silenciou, Carolina não se aguentou e começou a chorar. Afinal ela queria mostrar a ele que estava forte, que agora era uma mulher adulta que não aceitaria ser passada pra trás. Mas a verdade é que sentia saudades, a verdade é que ainda o amava como na primeira vez que se viram e isso era ainda sua maior tristeza.


Todos aqueles pensamentos e o choro foram interrompidos pelo sinal do telefone, sinal que indicava que a ligação tinha chegado ao fim...Sim, Carlos continuava o mesmo covarde de sempre. Ele apenas dava sinais de que queria agir como um responsável, ele apenas fingia que estava pronto, mas quando ela finalmente tinha uma reação. Puft! Carlos desaparecia...foi assim por muitos anos e agora não seria diferente.


Carolina, no fundo, acreditava que ele seria capaz dessa vez. Ela, mesmo sem querer, havia criado uma expectativa tão grande, que quase chegou a imaginá-los juntos novamente. Mas não. A vida e a covardia de Carlos não queriam assim, a vida não iria permitir que ela vivesse todo aquele tormento de novo, mas isso ela ainda não entendia...

 

A partir daquela maldita ligação foi inevitável, voltou a sentir-se uma menina, angustiada e cheia de medos. Todos os dias quando chegava em casa, Carolina checava a caixa postal, os emails, a mensagens no celular, mas nada. Não haviam sinais dele em lugar nenhum. Seus amigos nem sequer comentavam mais sobre o retorno dele, parecia que ele estava procurando um outro lugar pra morar e que, em breve, iria se mudar de cidade mais uma vez.


Quem sabe... Carolina não confirmou.

Aliás, Carolina deixou de confirmar muitas coisas com aquele garoto covarde.



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