Contos e Crônicas

As aventuras do Corsa 95 - Parte I

08:30:00

[caption id="" align="alignleft" width="351"]Featured image rabisco de Ingrid Martins[/caption]

Verde, robusto, com aparência mais nova do que realmente constava em seus documentos, o Corsa 95 começou muito cedo suas vidas nas ruas. Vindo de uma agência de carros lá do interior de São Paulo, o garotão da concessionária estava destinado a uma vida de aventuras e muitos percalços.

No dia em que receberia sua carta de "alforria" e conheceria finalmente a pessoa que lhe tiraria da monotonia de ser observado pelos compradores e sempre rejeitado por conta da fama de bateria fraca, o querido Corsinha estava prá lá de ansioso.

O medo da bateria falhar no momento do último teste era maior do que aquele que ele sentira quando foi rejeitado por aquela linda fusquinha.

"Se o comprador me achar fraco?", "E se ela achar que o Chevette 98 é mais bonitão que eu?"...pensamentos inseguros pairaram sobre ele a manhã toda, até que lá estava ela. Betinha. A moça que o levaria embora, a mulher, que segundo os vendedores, levava uma vida pacata e viajada. Betinha era bem diferente do que ele imaginava, falava pelos cotovelos e tinha os cabelos negros.

- Bem mais bonita do que a Fusquinha, me dei bem! - o Corsa 95 pensou.

Enquanto fechava negócio, o Corsa apenas observava a ela e aquele moleque de aparentemente 16 anos que estava com ela.

- Xi, aquele ali vai me dar muito trabalho ainda, com certeza não deve nem ter habilitação.

O "moleque" ao qual o Corsa observava, era Tom, sim o mesmo garoto apaixonado frustrado das histórias anteriores e também o mesmo garoto que acumularia aventuras ao Corsa 95. Ao contrário do que o carrinho pensara, Tom tinha 20 anos e sim, já era habilitado. Mas não, não dirigia carros.

Tudo pronto, negócio fechado e finalmente a certeza de que seus dias de tédio haviam terminado. A despedida foi bem rápida e Betinha nem lhe deu tempo de dar aquela piscadela à Fusquinha que só observou de longe o verdinho sumir por entre os carros livres na avenida.

Os dias com Betinha eram mesmo muito pacatos e Tom só entrava no Corsa 95 quando tinha algum problema com a moto ou quando sua mãe precisava levá-lo para a faculdade em dias de chuva. Nada de perigoso ou fora do normal acontecia aos dias do Corsinha e ele se sentia realizado andando livremente por aquela cidadezinha.

Um único problema começou a surgir com o passar dos dias. O tédio voltara a ser companheiro constante daquele pobre carrinho verde que entre os amigos da concessionária era o conhecido "sonhador". Corsa 95 sonhava com uma vida de aventuras, queria mesmo era ter nascido uma Land Rover, mas fazer oque...filhote de carros baratos não nasce com corpinho de gente rica, muito menos motor. Mas mesmo com pouquissimas chances de ser um aventureiro, Corsa 95 sonhava...

A espera no estacionamento do serviço de Betinha era como um playground para a imaginação do garoto que ia longe... sonhava em conhecer cidades grandes, andar em estradas de terra e carregar uma turma de amigos agitada para dar início a uma viagem tão sonhada.

O Corsa 95 nasceu um pequeno carrinho barato, mas sonhava tranportar muito mais que uma rotina adulta, sonhava transportar piadas cretinas e diversão, sonhava mesmo era que Tom perdesse o medo da direção e pudesse quem sabe, então, mudar o rumo mais uma vez de sua história...

(Continua...)

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