Contos e Crônicas

Ainda é Cedo

07:00:00



Eu nunca entendi muito bem como pode uma criança que está em uma cadeira de rodas desde os 3 anos de idade falar com tanto amor da vida. Yara comemorava seu aniversário de 8 anos quando nos conhecemos. Ela era filha do filho de uns amigos dos meus pais e nós fomos convidados para a festa.

O que mais me chamou atenção era que tudo naquela festa lembrava movimento, lembrava tudo aquilo que Yara perdeu após ter um AVC. Como é que Deus permite que uma coisa dessas aconteça como uma criança? - eu me perguntava no dia em que nos vimos pela primeira.

Yara era uma garotinha forte e tinha muito mais a ensinar do que aprender. Tive certeza que aquela criança era um anjo logo depois da primeira conversa que tivemos.

- Tia do que você tem medo? - ela me perguntava com os olhos inquietos.

- Hã? - aquela era uma pergunta muito capciosa para uma criança de somente 8 anos.

- Ai tia, não se faz de boba. Do que você tem medo? Tipo aqueles medos grandes igual montanha-russa. - ela insistia.

- Ah Yara, não sei. Acho que tenho medo do escuro. - como pode uma pequenininha daquela me deixar tão desconfortável com uma pergunta tão simples...

- Nossa! Então deve ser muito difícil ser você né tia? - ela concluiu.

- Como assim menina? Por que é que meu medo de escuro dificultaria minha vida? - indaguei sem entender muito as conclusões da pequena.

- Ué tia, quando a gente vem ao mundo como é que era a barriga da mamãe? - fiquei pensativa com aquela segunda perguntinha.

- Escura? - questionei ressabiada.

- Exatamente tia. Você tinha medo daquilo que lhe deu a vida por 9 meses. Já pensou que terror era pra você viver na barriga da sua mamãe? - ah, será que ela nunca mais iria parar de me fazer perguntas.

- Ai que bobagem Yara, vai lá vai...sua festa tá acontecendo e você aqui perdendo tempo com essas bobagens... - desconversei e sai.

-

A garota tinha apenas 8 anos e sem querer chacoalhou a minha vida. A garotinha não tinha somente 8 anos, ela estava em uma cadeira de rodas há 5 e nem sequer ligava para aquilo.

Ela concluiu que a vida poderia ser assustadora pra mim, simplesmente porque pra ela a vida parecia escura e era justamente esse o meu medo. Yara vivia no escuro e eu não me dei conta, eu disse a ela que tinha medo de viver no escuro e caramba, era tudo o que ela tinha nos últimos anos.

- Como não pensei nisso antes...- sai correndo para dar-lhe um abraço.

Yara estava tão contente com os dois balões de gás presos em sua cadeira que mal me deu atenção. Eu queria tanto dizer-lhe que eu era mesmo uma covarde que tinha medo de que a vida ficasse ainda mais difícil, eu era uma fraca, mas ela sim era uma garota incrível e só tinha 8 anos.

Desde a primeira vez que nos vimos, eu soube que ela era um anjo. Eu não vivia um dos meus melhores momentos na vida quando nos conhecemos naquela festa de 8 anos. Eu estava em depressão e tudo o que eu pensava todas as noites era no quanto aquele escuro me fazia querer cortar os pulsos...

Yara não sabia disso, talvez ninguém soubesse além de mim, mas no momento em que nos falamos pela primeira vez ela soube exatamente como tocar meu coração e é isso que me impressiona nas crianças...elas ainda mantém vivo o poder de tocar pessoas e corações.

Aprendi com ela sobre a vida, sobre o quanto precisamos agradecer por ela, não importam as circunstâncias. Aprendi que só estamos nesse mundo, porque estamos destinados a cumprir uma missão na Terra e não importa o quanto você passe seus dias reclamando da vida dura que leva, sua missão continuará lá a te esperar.

Yara era com certeza um anjo e naquele sábado o céu chorava o seu adeus.

Recebi a notícia logo pela manhã, a garotinha, que me encantava com suas perguntas inquietantes, tinha a saúde muito frágil desde o AVC e uma parada cardíaca havia levado-a de nós.

Eu chorei um choro tão amargo que quase podia sentir aquelas mãos pequeninas segurando meu rosto dizendo:

- Nossa tia como você é chorona, entende que a minha missão aqui acabou? Eu tô feliz e hoje, olha só, eu tô correndo.

A alma da nossa pequena Yara nunca perdeu os movimentos das pernas, a alma daquela garotinha era destemida e iria descansar finalmente.

Yara faleceu aos 11 anos de idade e eu posso lhes garantir que os 3 anos que a tive como minha amiga e confidente, Yara foi um anjo. Ela era um anjo toda vez que pedia para que eu deitasse minha cabeça em suas pernas e brincava dizendo que estava sentindo cócegas no joelho. Ela era um anjo toda vez que ela me fazia correr três voltas no parque, porque ela estava cansada demais para correr por mim...

Yara era uma pequena garota, mas que sabia encontrar felicidade nas pequenas coisas. Ela nunca teve o prazer de andar pelos parques com seus pais encantados com seus primeiros passos. Ela sempre soube das vezes que seus pais choravam escondidos por ela...Mas Yara era mais do que a Terra poderia sustentar.

Ela se foi, seu corpo físico perdeu de vez todos os movimentos, seu coração de apenas 11 anos parou de bater, mas Yara...ela teve sua alma liberta para viver com os anjos, que a aguardavam com festa e chuva, que era seu momento predileto do verão.
Sentirei saudades.

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2 Comentários

  1. Que maravilhoso! E que lição de vida... Quando menos esperamos vem alguém que nem passa em nossa cabeça e nos ensina algo e nos coloca no "chão". Belo texto. Sucesso. > www.pensapequena.com

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    1. Oi Emanuelly!!! Muito obrigada, esse é o meu desejo quando escrevo, ou divertir ou emocionar. Fico feliz que tenha gostado!!! Volte sempre ta? <3

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