Contos e Crônicas

O poeta (in)Fartou!

17:55:00




Os batimentos cardíacos demonstravam que outra crise estava por vir. O acelerado do pulso revirava-lhe a alma e indicava que as rédeas estavam se afrouxando outra vez.

Henry sentia-se pesado, esmagado pela rotina e pela comodidade de permanecer onde estava.

Os sonhos utópicos todos engavetados apenas deixavam escapar um brilho pela fresta do armário encostado na parede do quarto escuro. Aquela crença no ser humano e na bondade do mesmo estava empoeirada sobre a sua mesa e Henry só sentia seus batimentos cada vez mais acelerados.

Seus olhos brilhavam uma luz nunca antes vista, mas aquela aceleração demonstrava que outra crise estava para acontecer.

Há pelo menos três meses, Henry não sentia aquele mal estar que lhe subia as mãos e engasgava na garganta. Pedaços de frases perdidas e interrompidas atrapalhavam sua respiração e como um fumante, que mesmo depois de ter largado o vício há décadas ainda tem vestígios da droga no organismo, ele também estava a sentir seqüelas de um tempo sem alma.

Muito embora, naqueles dias Henry vivesse de poesia novamente, ainda restavam em seus poros vestígios de uma literatura mal dividida e compreendida.

Utopia, sonhos e um coração puro fizeram com que Henry sofresse novamente uma crise.

Naquela tarde de sol quente, com os jornais anunciando sensações térmicas de 50ºC, Henry sentia-se frio. De sua boca saltavam frases e poesias enferrujadas e de seu coração batimentos descompassados a gritar “Alguém me roubou de mim!”

Henry foi roubado.

A fé ingênua de Henry o roubou. A utopia de uma vida digna o roubou.

Os sonhos de mudar o mundo roubaram Henry de si mesmo.

E assim, numa tarde que antecedia a festa mais esperada de todas, o poeta sem confetes ou serpentinas, infartou!

Infartou da vida e fartou-se. Fartou-se da cidade sem leis, dos dias monótonos.
O poeta fartou-se!

Infartou daquela sala de luz amarela, refúgio de seus medos e velório de seus sonhos.

Os sonhos de Henry estavam mortos, mas e Henry?
Para onde foram os sonhos do poeta?

Você pode gostar também de:

0 Comentários

Imagens e Créditos

A maioria das imagens usadas no blog foram baixadas do https://www.pexels.com/, uma plataforma que disponibiliza fotos licenciados sob a licença Creative Commons Zero (CC0). Isso significa que elas são totalmente gratuitas para serem usadas para qualquer finalidade legal.