Contos e Crônicas

O poeta na UTI

08:21:00

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O barulho do relógio era o único barulho que conseguia se ouvir em sua sala.

Henry sentia o suor escorrer-lhe a pele e a respiração ofegante. Aquela era a matéria mais importante da semana e nenhuma inspiração, nenhuma frase com sentido sua mente era capaz de produzir. Henry lutava há meses pela ausência de literatura em sua corrente sanguínea, mas estava difícil continuar a viver daquele jeito.

Naquela tarde cinza, chuvosa e com ponteiros lentos de um relógio de pilha uma constatação: Henry precisaria de uma transfusão. “Por favor, preparem as ambulâncias, parem os hospitais” as assistentes gritavam agora abafando o tic-tac do relógio impaciente. Henry estava apático e sua boca estava seca. “Por favor doutor, cuide dele”, o editor-chefe da redação pedia aos prantos.

Henry tinha seus dias contados caso a transfusão não ocorresse como os médicos planejavam.

“PRECISAMOS DE MAIS POESIA!!”

“INJETEM LITERATURA!!”

“POR FAVOR, CADÊ A DOSE DE CORDEL?”

“VAMOS EQUIPE, NÃO PAREM. BOBEIEM VERBOS E REFRÕES NAS ARTÉRIAS”

Henry assistia ao espetáculo da transfusão inerte.

Seus olhos estalados viam seu corpo refletir um vazio imenso no espelho do teto da sala cirúrgica e apenas conseguia pensar “Não sairei daqui vivo!”.

Na sala de espera, jornalistas, músicos e seu chefe de redação aguardavam ansiosos.

Cada doador esperava que Henry saísse de lá vivo e voltasse a sorrir como antes.

De volta ao tormento do centro cirúrgico os médicos continuavam sua luta pela literatura.

“JÁ POSSO SENTIR O SANGUE QUENTE VOLTANDO A CORRER...”

Henry piscou.

“SEUS OLHOS ESTÃO VOLTANDO A BRILHAR!!!! INJETEM MAIS, MAIS RÁPIDO.. NÃO PAREM. PRECISAMOS DE MAIS VERSOS...”

Henry sorriu!

“O ROSTO DELE ESTÁ QUASE CORADO, NÃO PAREM!!! CADÊ A DOSE DE INSULINA? PRECISAMOS DE DOÇURA!!!”

Henry apertou seus dedos entre o lençol que cobria seu corpo e o colchão.

“PRONTO!!!! TERMINAMOS!!!!! A CIRURGIA FOI UM SUCESSO!”

Literatura saltava de seus olhos.

Henry estava extasiado. Seu corpo pulsava mais que nunca.

“Terminamos a cirurgia!”, o médico quebrava o silêncio da sala de espera.

Os olhos arregalados, curiosos, amedrontados o encaravam na expectativa de algo bom.

Um minuto de suspense e a notícia.

“A CIRURGIA FOI UM SUCESSO. HENRY VOLTOU A VIVER!”

Aplausos e suspiros de alivio, canções e poesias declamadas...

Os corredores frios de um hospital que trouxe de volta a vida um poeta morto pelo peso dos dias, morto pela correria da vida.

De volta à vida o poeta Henry!

“Não acredito que estou vivo, preciso de um papel e uma caneta...e por favor, me tragam aquele café de sempre, bem quente”

 

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2 Comentários

  1. "Poesia Longa a Henry"
    Texto maravilhoso demais, achei que no começo eu estava fazendo uma grande confusão de situações, quando percebi, estava preso numa sala de cirurgia, atrás de um vidro, gritando ao lado de Henry "fica forte amigo, estamos com você".

    Amei tudo que li, do começo ao fim. *_*

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  2. Ah!! Obrigada!!!
    Henry vai escrever mais daqui pra frente :)
    "o poeta riu de todos e por alguns segundos foi feliz!"

    e que haja poesia sempre correndo em nossas veias, todas elas ;)

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